A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma polineuropatia aguda inflamatória que afeta os nervos periféricos, caracterizando-se por fraqueza muscular progressiva e arreflexia. Geralmente, inicia-se após infecções ou processos imunológicos que provocam uma resposta inflamatória intensa, culminando na desmielinização (em alguns casos, acomete o próprio axônio). Em Anestesia e Síndrome de Guillain-Barré, a abordagem perioperatória requer cuidados especiais, pois os reflexos neuromusculares, a função respiratória e a estabilidade cardiovascular podem estar comprometidos.
1. Visão Geral da Síndrome de Guillain-Barré
- Fisiopatologia: A resposta autoimune ataca as bainhas de mielina dos nervos periféricos, resultando em fraqueza que, tipicamente, avança de forma ascendente (iniciando nos membros inferiores e progredindo proximalmente). Em casos graves, há acometimento de nervos respiratórios.
- Quadro Clínico: Fraqueza simétrica de progressão rápida, arreflexia, possível disfunção autonômica (instabilidade de pressão arterial, arritmias) e dor neuropática. Em muitos pacientes, ocorrem dificuldades na deglutição, comprometendo a proteção de vias aéreas.
- Evolução: Depois de atingir o pico de fraqueza, geralmente começa a fase de plateau e, em seguida, a recuperação. O período de reabilitação pode levar semanas a meses, dependendo da gravidade.
2. Fatores de Risco Anestésico na SGB
- Fraqueza Muscular: Se a capacidade respiratória estiver prejudicada, há maior risco de insuficiência respiratória no pós-operatório.
- Disfunção Autonômica: Arritmias, variações súbitas da pressão arterial e dificuldade na regulação de temperatura podem ocorrer.
- Alteração na Sensibilidade a Bloqueadores Neuromusculares: Em geral, a literatura sugere maior sensibilidade a relaxantes despolarizantes (como succinilcolina) e também resposta atípica aos não despolarizantes, exigindo monitorização via TOF.
- Tendência a Dor Neuropática: Pacientes podem ter dor intensa, necessitando controle cuidadoso no perioperatório.
3. Avaliação Pré-Operatória e Planejamento
- Status Neurológico: Verificar se o paciente está em fase aguda, plateau ou em recuperação. A fraqueza respiratória e a disfunção autonômica são determinantes na decisão anestésica.
- Função Pulmonar: Em casos graves de SGB, é comum a internação prévia em UTI. Avaliar capacidade vital, pressões respiratórias máximas e trocas gasosas, determinando se o paciente requer suporte ventilatório.
- Comorbidades: Hipertensão, diabetes ou outras condições podem coexistir, agravando a condução perioperatória. Ajuste de medicações e correção de desequilíbrios metabólicos são essenciais.
4. Anestesia Geral: Cuidados e Desafios
- Indução: Evitar doses excessivas de hipnóticos e opioides que possam deprimir ainda mais a respiração. O uso de etomidato ou propofol fracionado, aliado a monitorização hemodinâmica próxima, reduz riscos de instabilidade.
- Bloqueadores Neuromusculares: A susceptibilidade à succinilcolina é controversa, porém há relatos de hiperpotassemia ou bloqueio prolongado em polineuropatias. Já os não despolarizantes (p. ex., rocurônio) podem induzir bloqueio imprevisível. O TOF (Train-of-Four) ajuda a titular doses com precisão, evitando bloqueio residual.
- Manutenção: Anestesia balanceada (inalatório em concentração baixa + opioides de curta duração) ou TIVA (propofol + remifentanil) para ajustar a profundidade. Monitorizar ECG e PA continuamente, devido à disfunção autonômica que pode desencadear arritmias ou hipotensão.
- Proteção Respiratória: Se houver suspeita de fraqueza neuromuscular significativa, a intubação e a ventilação mecânica prolongada podem ser necessárias até confirmar segurança no pós-operatório.
5. Anestesia Regional: Benefícios e Riscos
- Bloqueios Periféricos: Podem ser úteis em cirurgias de extremidades, evitando anestesia geral. Entretanto, há risco de distribuição anômala do anestésico local se as bainhas nervosas estiverem lesionadas. O ultrassom minimiza complicações.
- Neuraxiais (Raqui, Peridural): Em geral, é uma opção debatida, pois já foram relatados casos de exacerbação da fraqueza motora após raquianestesia em polineuropatias desmielinizantes. Não há contraindicação absoluta, mas o anestesiologista deve pesar o risco-benefício, sobretudo se houver disfunção autonômica e suscetibilidade a hipotensão.
- Monitorização Adicional: Se a escolha for anestesia regional, manter atenção a variações de pressão arterial e frequência cardíaca, pois a instabilidade é mais frequente nos neuropatas.
6. Manejo da Disfunção Autonômica
A SGB pode provocar desequilíbrios vegetativos, com oscilações súbitas da PA (hipotensão/hipertensão) e arritmias cardíacas. Estratégias para lidar com essa situação:- Monitorização Invasiva: Em cirurgias de maior porte, inserir cateter arterial para aferição batimento a batimento.
- Manter Normovolemia: Flutuações bruscas de volume podem precipitar instabilidade.
- Uso Prudente de Vasopressores ou Beta-bloqueadores: Corresponder à variação pressórica do paciente, evitando extremos.
7. Pós-Operatório e Reabilitação
- Suporte Respiratório: A fraqueza pode persistir ou agravar-se se houve grande manipulação anestésica. Verificar se o paciente retoma força adequada para extubação.
- Analgesia e Reabilitação: Investir em analgesia multimodal, fisioterapia respiratória e motora, garantindo prevenção de complicações tromboembólicas e melhora da mobilidade.
- Observação de Surtos ou Agravos: Embora não haja evidência de que a anestesia por si reative a SGB, crises de dor neuropática ou instabilidade autonômica podem se estender, demandando maior vigilância.
Conclusões e Recomendações Finais
Em Anestesia e Síndrome de Guillain-Barré (SGB), a abordagem deve ser altamente individualizada, considerando:- Avaliação da Fase da Doença (aguda, plateau ou recuperação);
- Função Respiratória e risco de ventilação prolongada;
- Monitorização Neuromuscular para uso seguro de relaxantes;
- Prevenção de Instabilidade Autonômica.
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