Via Aérea e Manejo de Instabilidade Atlantoaxial em Pacientes com Síndrome de Down

A manipulação da via aérea em pacientes com Síndrome de Down (SD) requer atenção especial, principalmente devido à possibilidade de instabilidade atlantoaxial. Essa condição, caracterizada pela laxidade dos ligamentos que unem as vértebras C1 (atlas) e C2 (áxis), pode acarretar subluxações e compressões medulares durante hiperextensão ou movimentações bruscas do pescoço. A seguir, discutiremos os riscos de subluxação cervical, as técnicas mais adequadas de entubação e a importância de medidas de estabilização, como uso de colar cervical ou coxins de posicionamento. 

Risco de Subluxação Cervical e Precauções no Manuseio

A instabilidade atlantoaxial pode causar compressão da medula espinhal e comprometimento neurológico grave caso haja um desvio significativo entre o atlas e o áxis. Em indivíduos com SD, a frouxidão ligamentar nessa região tende a ser maior, potencializando o risco em situações de estresse mecânico, como ocorre na manobra de laringoscopia durante a intubação orotraqueal.Principais cuidados:
  1. Avaliação prévia: Investigação radiológica (raio-X, tomografia ou ressonância) pode ser necessária para quantificar a instabilidade. Em casos de risco elevado, a equipe ortopédica deve ser consultada.
  2. Evitar hiperextensão forçada: Durante o manuseio da via aérea, a movimentação do pescoço deve ser mínima, prevenindo deslocamentos bruscos.
  3. Estabilização manual: Um assistente pode auxiliar na imobilização cervical enquanto o anestesiologista realiza a entubação.
Situações rotineiras, como posicionar o paciente na mesa cirúrgica ou transferi-lo para a maca de recuperação, também exigem atenção. Mesmo pequenos descuidos podem agravar o desalinhamento vertebral e levar a complicações neurológicas. 

Técnicas de Entubação e Posicionamento

Entubação com Videolaringoscópio

O videolaringoscópio tem se destacado como uma ferramenta de grande utilidade na manipulação da via aérea difícil, pois permite uma visualização mais ampla e reduz a necessidade de hiperextensão do pescoço. No caso de pacientes com Síndrome de Down, essa abordagem minimiza as manobras traumáticas e diminui o risco de subluxação.

Vantagens do videolaringoscópio:

  • Visualização indireta das estruturas laríngeas, facilitando a introdução do tubo endotraqueal.
  • Maior precisão na identificação de anomalias da via aérea.
  • Possibilidade de assistência simultânea de outro profissional que acompanha a imagem na tela.

Fibrobroncoscopia

A fibrobroncoscopia é outra técnica valiosa em casos de extrema dificuldade de entubação ou quando há necessidade de manipular o mínimo possível a coluna cervical. O broncoscópio flexível permite a navegação controlada até a traqueia, reduzindo a tração no pescoço. Entretanto, requer maior familiaridade do profissional com o equipamento e pode demandar mais tempo do que a entubação convencional ou com videolaringoscópio.

Posicionamento na Mesa Cirúrgica

A posição supina é a mais comum, mas exige atenção ao alinhamento cervical. Cintas de velcro ou coxins específicos podem ser utilizados para estabilizar o tronco e o pescoço, garantindo que não ocorram deslocamentos ao longo do procedimento. Se for necessário algum grau de inclinação ou lateralização, cada mudança deve ser feita cuidadosamente, monitorando-se a estabilidade da coluna cervical. 

Uso de Colar Cervical ou Coxins para Estabilização

Para prevenir ou minimizar a subluxação do atlas em relação ao áxis, colar cervical ou coxins de suporte podem ser empregados em diferentes fases do cuidado:
  1. Período pré-operatório: Em pacientes com instabilidade atlantoaxial conhecida, o colar cervical pode ser utilizado já na recepção hospitalar, garantindo segurança no deslocamento até o centro cirúrgico.
  2. Indução anestésica: Um coxim posicionado na região occipital ou sob os ombros pode ajudar no alinhamento neutro da coluna cervical, diminuindo a necessidade de hiperextensão do pescoço durante a laringoscopia.
  3. Pós-operatório: No retorno à sala de recuperação, manter a imobilização adequada reduz o risco de movimentos bruscos, principalmente se o paciente apresentar agitação ao despertar da anestesia.
 

Considerações Finais

O manejo da via aérea em pacientes com Síndrome de Down requer uma abordagem cautelosa e individualizada, com foco na prevenção de lesões medulares decorrentes de instabilidade atlantoaxial. Técnicas de entubação menos invasivas à coluna cervical, como videolaringoscopia e fibrobroncoscopia, aliadas ao uso de dispositivos de imobilização (colar cervical ou coxins) e ao posicionamento cuidadoso, contribuem para uma anestesia mais segura.A conscientização da equipe multidisciplinar — anestesiologistas, cirurgiões, enfermeiros e fisioterapeutas — sobre os riscos envolvidos é fundamental para o sucesso do procedimento. Uma vez que cada caso pode exigir ajustes específicos, o planejamento meticuloso e o acompanhamento pré e pós-operatório tornam-se essenciais para garantir a estabilidade da coluna cervical e a segurança global do paciente com SD.

Avaliação pré-anestésica

Garanta sua tranquilidade na cirurgia. Agende já sua consulta pré-anestésica com o Prof. Dr. Ivan Vargas. Avaliação Presencial ou online!

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *