
A avaliação cardiológica representa um pilar fundamental no cuidado de pacientes com malformações congênitas, especialmente quando se aproximam de procedimentos cirúrgicos ou intervencionistas. Nesse contexto, defeitos do septo atrioventricular (DSAV), ajustes no monitoramento hemodinâmico e a vigilância constante de hipoxemia ganham destaque. Este artigo busca fornecer uma visão abrangente dos principais pontos de atenção, abordando desde a anamnese e exames pré-operatórios até a preparação de uma equipe multidisciplinar capaz de lidar com possíveis intercorrências.
As malformações cardíacas congênitas podem se apresentar de modo variado, influenciando diretamente a função cardíaca e, por consequência, o planejamento anestésico. Um dos erros mais comuns é subestimar a complexidade do paciente por falta de investigação detalhada, o que pode resultar em complicações perioperatórias.
A avaliação cardiológica inicia-se com uma anamnese detalhada, abrangendo histórico familiar, sintomas de insuficiência cardíaca, cansaço e fadiga em atividades básicas, entre outros. Em seguida, exames como eletrocardiograma (ECG), ecocardiograma e, em alguns casos, ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC) podem ser solicitados para confirmar diagnósticos e mensurar a gravidade da malformação.
Quando o defeito se concentra no septo, é crucial identificar se é um defeito do septo atrial (DSA), do septo ventricular (DSV) ou uma combinação mais complexa, como o DSAV. Cada subtipo possui implicações diferentes, exigindo abordagens individualizadas.
Nem todo paciente com malformação congênita apresenta sintomas evidentes. Isso não significa que o risco seja desprezível. Em muitos casos, o coração adapta-se gradativamente, compensando de modo parcial ou total o defeito estrutural. No entanto, sob estresse anestésico e cirúrgico, esses mecanismos de compensação podem falhar, desencadeando complicações.
O septo atrioventricular, localizado na junção entre os átrios e os ventrículos, pode apresentar diferentes graus de malformação. O DSAV completo é o mais grave, envolvendo a fusão das válvulas mitral e tricúspide em uma única válvula comum, enquanto o DSAV parcial geralmente inclui defeitos menores em válvulas ou parte do septo.
A comunicação anômala entre átrios e ventrículos pode causar shunt de sangue (geralmente esquerda para direita), resultando em sobrecarga de volume nos pulmões e, ao longo do tempo, sobrecarga cardíaca. Em situações de stress, como uma cirurgia maior, o desequilíbrio hemodinâmico pode progredir rapidamente para insuficiência cardíaca ou hipertensão pulmonar.
Mesmo em pacientes adultos que desconhecem o defeito congênito, a presença de dispneia de esforço, palpitações ou sopros deve acender o alerta para a possibilidade de uma malformação subdiagnosticada.
Durante a cirurgia, o anestesiologista e toda a equipe devem adotar estratégias para monitorar, em tempo real, as variações hemodinâmicas e a oxigenação tecidual.
Em procedimentos de médio e grande portes, recomenda-se a monitorização invasiva da pressão arterial por meio de cateter inserido em artéria radial ou femoral. Isso fornece leituras contínuas e fidedignas da pressão sistêmica, permitindo ajustes imediatos na administração de fluidos e fármacos.
A oximetria de pulso torna-se ainda mais relevante em casos de cardiopatia congênita, pois oscilações na saturação de oxigênio podem indicar desequilíbrios entre oferta e consumo de O2. A capnografia, por sua vez, avalia a eficácia da ventilação, ajudando a identificar precocemente uma possível hipoventilação ou desconexão do circuito anestésico.
Pessoas com defeitos no septo atrioventricular podem ser suscetíveis tanto a quadros de hipervolemia quanto de hipovolemia. O manejo de fluidos deve ser individualizado, evitando a sobrecarga do coração ou uma perfusão inadequada de órgãos vitais.
Em minha experiência clínica, já acompanhei pacientes com DSAV que apresentaram quedas expressivas na pressão arterial ao mínimo ajuste no anestésico ou na ventilação. Nesses casos, lançar mão de fármacos vasoativos (por exemplo, noradrenalina ou dobutamina) pode ser necessário para manter a estabilidade hemodinâmica, sempre balanceando benefícios e riscos.
Antes de submeter o paciente a qualquer procedimento cirúrgico, é indispensável a comunicação entre a equipe anestésica e os cardiologistas envolvidos no tratamento. Essa interação permite:
Sempre que possível, o paciente deve ser otimizado antes do ato cirúrgico. Isso inclui controlar arritmias, ajustar doses de medicações cardiovasculares e assegurar que eventuais infecções respiratórias ou condições descompensadas sejam tratadas previamente.
A participação de cirurgiões, enfermeiros especializados e fisioterapeutas no planejamento perioperatório também faz diferença. Cada profissional contribui para o bem-estar do paciente, garantindo um suporte global, do pré ao pós-operatório.
A avaliação cardiológica e o conhecimento das malformações congênitas são partes essenciais do planejamento anestésico. Fatores como o risco de defeitos do septo atrioventricular, ajustes na monitorização hemodinâmica e vigilância de hipoxemia não devem ser subestimados. A comunicação efetiva com a equipe cardiológica e a adoção de protocolos individualizados aumentam a segurança do paciente e reduzem complicações.
Em última análise, tratar pacientes com cardiopatias congênitas requer atenção especial a detalhes que muitas vezes passam despercebidos. A precisão na avaliação, a preparação minuciosa e o trabalho multidisciplinar são os pilares para um desfecho cirúrgico bem-sucedido.
Garanta sua tranquilidade na cirurgia. Agende já sua consulta pré-anestésica com o Prof. Dr. Ivan Vargas.
Avaliação Presencial ou online!
Agende já!
Facebook
Youtube
Instagram